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Era bem no fundo. Lúcia Kazinsky Lopes em uma galeria da Zona Norte. Gostaria de estar em qualquer lugar, menos ali, mas uma parte dela se esforçava muito para acreditar na importância daquilo. Conhecer o novo. Não é isso que dizem que você precisa fazer? Tudo bem, um passeio à Avenida Franklin Roosevelt podia não ser exatamente como viajar a uma ilha grega e, de qualquer maneira, Lúcia nem tinha certeza se valia a pena se deslocar até o Mediterrâneo em busca de uma suposta mudança que viria de que jeito, comendo

mussaca em uma mesa de toalha branca enquanto algum cara de cabelo engomado ajeitava cacos de louça com os pés? Era a ditadura da mudança radical de vida! Fazer tudo

diferente a partir da doença. Mas poucos percebiam, pelo jeito, que acreditar nisso pressupunha acreditar que se tinha vivido uma vida inteira de erros, cuja rota o impacto de um tumor permitia corrigir. E ela não ia dar a ninguém esse gostinho. Não mesmo. Qual era o problema em continuar fazendo tudo igual?

Viram o letreiro da JJ Perucas e Apliques. Lúcia apertou um botão para que a funcionária liberasse a porta. Perucas de cabelo de verdade valiam alguns milhares de reais. A princípio, Arthur ficou olhando as cabeças dos manequins enquanto sua mãe recebia explicações de alguém chamada Kelly, que tinha a voz de quem estivesse permanentemente tentando transformar um chiclete em nada. As cabeças eram perturbadoras.

“O que tu acha dessa?”

Tinham colocado uma peruca na sua mãe. Ele olhou bastante antes de se sentir capaz de responder. Havia alguma similaridade entre o tom daquele cabelo e o castanho claro que corria em toda família Kazinsky, mas o corte estava errado. Uma montanha de ondas sedosas.

“Não tenho certeza.”

“Tu não gostou.”

“A cor tá certa.”

Ela ficou tentando se entender em um espelho que Kelly apoiava no balcão.

“A gente pode mexer no corte, viu? Deixar exatamente do jeito que a senhora quiser.”

Lúcia continuou sem dizer nada.

Talvez Arthur tivesse o poder de transformar aquele processo penoso em uma espécie de busca meio engraçada pela peruca perfeita, ou dizer alguma coisa leve que no fundo significasse algo como é-tão-libertador-poder-ser-outra-pessoa-através-de-uma-peruca, mas infelizmente ele não conseguia fazer nada disso.

“Tu acha que dá pra cortar uma franja, Kelly?”

Aparentemente eles tinham um cabeleireiro profissional nos fundos da loja, então ela saiu de lá usando o cabelo novo-velho porque quis, deixou um cheque pré-datado de sete mil reais por algo que tinha sido feito com o cabelo de umas três ou quatro pessoas endividadas. Ele às vezes olhava para a mãe nos semáforos e ela estava lá, o rosto para frente, perdida, atordoada, como se a paisagem não estivesse nem encostando nela.

Na garagem, ela disse:

“E as tuas plantas, como é que elas tão?”

Ele abriu a porta do carro.

“Crescendo, eu acho.”

Ela deu uns passos e parou, sem pressa. Estava pensando em alguma coisa grande que não conseguia desenredar.

“Acho que teu pai e eu, a gente era bem–”

“Conservador?”

“Tradicional. Vai ser um crime, Arthur. Tecnicamente.”

“Já é um crime, tecnicamente.”

“Tu sempre foi meio rebelde, né? Era uma criança quietinha e solitária, mas depois não podia se aguentar quando via um jeito de burlar alguma coisa.”

“Acho que eu prefiro chamar isso de desobediência civil, mãe.”

“Espero que não seja tarde demais para essa sua desobediência civil.”

 

telefone dela. Em vez disso, tinha ficado lá na porta acenando para Sylvia com aquele grande sorriso latino enquanto ela entrava no carro sentindo mais uma vez o gosto insuportável da solidão. Nessas horas, ela podia se concentrar na sua irmã Margareth para ter certeza de que estava se saindo melhor, bem melhor, léguas e léguas de melhor, embora ela não sentisse nenhum orgulho em ter que apelar para isso.

Má notícia de Margareth, agosto de 2008 (em um cartão-postal com um par de pêssegos em primeiro plano): ela está vivendo num trailer em algum buraco da Geórgia, e não é possível que a pessoa vá tão longe só para se ferrar. Sem trabalho, sem futuro. Seu namorado é um ogro movido a álcool pior do que a pior versão do pai delas. Margareth adora a umidade fértil da Geórgia.

Má notícia de Margareth, fevereiro de 2010 (em um telefonema de cinco minutos e vinte e dois segundos): como Sylvia, ela recebeu quarenta mil dólares de herança da mãe, mas já que não tinha uma coisa simples como uma conta no banco, Margareth e o namorado decidiram transferir o dinheiro para a conta dele. Dois dias depois, ela acorda com o barulho da moto. Ele nem se incomodou em levar as roupas. Margareth pega aquela tralha e acende uma fogueira descontrolada, o que viola completamente as regras do camping onde mora. A carta de expulsão chega algumas horas mais tarde, mas alguém precisa ler em voz alta para ela porque Margareth está completamente catatônica.

Má notícia de Margareth, junho de 2012 (através de uma velha conhecida delas): começa a trabalhar em um abatedouro de aves. Quando os animais passam pendurados pelas patas, ela é a pessoa quem tira os corações da cavidade tóraco-abdominal e os descarta em um tonel de plástico branco. 

Sylvia empurra os ovos para o canto do prato.

 

Sylvia olha para a travessa de cerâmica. Não está ruim. O professor ajudou um pouco com os padrões indígenas que ela decidiu criar nas bordas. Não foi uma cena do Ghost nem nada parecido, mas ela era ruim com a esteca e ele meio que guiou sua mão insegura nos primeiros pequenos triângulos de um jeito que só alguém de origem latina faria (ele era latino; enfim, seu pai ou sua mãe). Sylvia não estava acostumada com aquela proximidade em uma relação professor-aluno. Era algo que ela sempre tinha tentado evitar quando lecionava. Claro que o fato de os dedos dele encostarem nos dedos dela, e um pouco do braço, e talvez mesmo os ombros, podia não significar absolutamente nada, mas ela preferia acreditar no mínimo em uma atração reprimida. Só que, no último dia do curso, ele teve completa condição – ética e carismaticamente falando – de pedir o