November 24, 2008
“O interesse que sentimos pelos personagens não vem, portanto, daquilo que reconhecemos em nós mesmos (somente os romances mais grosseiros fazem uso desse processo), mas daquilo que aprendemos sobre nós mesmos. A verdade que emana de nossa interação com as figuras fictícias é, com muita freqüência, uma verdade ignorada. É a diferença, e não a semelhança, que permite descobrir-se. Os personagens mais interessantes são aqueles que vão ao encontro das supostas inclinações do leitor.”
Esse é um trecho do livro L’effet-personnage, de Vincent Jouve, infelizmente não traduzido para o português. Um ótimo livro teórico sobre as diversas relações que se estabelecem entre personagem e leitor, e sobre o modo como varia, ao longo de uma mesma leitura, a percepção do leitor frente aos personagens: do personagem como peão, ou seja, o leitor vê o personagem claramente como um elemento de um universo criado (o livro), que é o que a ficção pós-moderna com tendências META faz em demasia; ao personagem como aquele que transgride, que passa pela experiência pela qual o leitor desejaria passar, mas reprime (e portanto ele a vive através do personagem).
November 12, 2008
Epa. Venho para lançar umas frases confusas a respeito de um comentário, do Rodrigo Fortes, deixado no post aí de baixo. Reproduzo o comentário:
Engraçado essa conversa de forma e conteúdo. Apesar dos argumentos “prós” sou um pouco contrário a esse ponto de vista. Pergunto se o contrário é viável: o conteúdo muda a forma? Ou não, ele é somente alguma substância maleável que fica o tempo inteiro se modificando ao sabor da forma? No final Carol, parece-me que quem faz o conteúdo sou eu, que estou lendo o seu romance, e não você, que está fazendo a forma.
Claro, o conteúdo muda a forma. Os dois influenciam um ao outro, e acabam se tornando meio indissociáveis no processo. Para começo de conversa, o meu conteúdo determinou a minha forma: pela natureza da história que eu queria contar, pareceu-me que a melhor maneira de organizá-la seria num romance com vários narradores, porque assim eu poderia explorar a mesma história sob diversos pontos de vista. Obviamente, outros escritores chegariam a outras soluções, a outros caminhos. Seria, nesse caso, o mesmo conteúdo sob várias formas? Creio que, nesse ponto, a forma já teria provocado mudanças significativas no conteúdo, e as histórias seriam muito diferentes umas das outras; a organização é parte da história, a sintaxe é parte da história e, bom, isso é uma confusão dos diabos.
(quanto mais penso sobre isso, mais percebo que é mesmo impossível separar forma e conteúdo)
E o leitor? Tem uma participação criadora também, por certo. A obra é aberta, mas nem por isso é possível ao leitor recheá-la de qualquer significado. A obra põe os seus limites, e o leitor se movimenta livremente nela (mas sempre, de maneira paradoxal, dentro desses limites impostos).
(mau-humor básico de quem não está conseguindo resolver uma pendenga de certo capítulo - o 9, minha gente, a recém o 9! E mau-humor me faz perder clareza, e lá se vai o modo cartasiano. trágico)
November 1, 2008
Alguns sabem, outros não: o Sinuca embaixo d’água foi uma das partes da dissertação de mestrado que defendi em setembro. Junto com ele, havia um artigo sobre o que chamei de personagem ausente (nesse post falei um pouco sobre isso, embora o assunto fosse, na época, apenas uma vaga idéia). É curioso ir para uma banca de dissertação com o formato romance + parte teórica, e obviamente os professores tampouco estão habituados a isso, de modo que eu temia muito que toda a discussão fosse focada no capítulo teórico da dissertação e que o romance passasse em branco. Acredite, já vi isso acontecer. Bom, no fim das contas, não foi assim que se passou, e os comentários sobre o Sinuca foram bem interessantes, sobretudo os da Janea Tutikian (devo dizer, sem falsa humildade, que o pessoal da banca gostou muito do romance, o que me tranqüilizou imensamente, e ainda mais levando em conta que a versão apresentada era uma versão que eu já nem gostava mais. Ui ui ui, esses escritores).
Mas o mais interessante foi a reação que o último capítulo causou na Jane: ela odiou. Ela disse que parecia aqueles histórias que nos envolvem até o limite para depois acabarem num “então era tudo um sonho” ou sei lá. Resumindo, ela argumentou, com bastante propriedade, que aquele capítulo estragava tudo. Ok, só pra esclarecer: não era um sonho, mas era uma espécie de interferência do autor que me parecia bonito e eficiente na época. Só que infelizmente - ou felizmente, porque pior seria ter percebido isso ainda mais tarde, ou simplesmente não ter percebido de todo - o capítulo não pôde resistir à distância temporal e à argumentação da Jane. Isso não significa, claro, simplesmente retirá-lo e fazer do antepenúltimo um último. O novo último precisa ganhar a cara de último. De toda a maneira, todos os capítulos estão virando outra coisa. E com isso vejo que até os personagem se transformam (o que prova ao descrentes que a forma define o conteúdo): o menos inteligente de todos torna-se mais perspicaz (descoberta número sei lá o que: narradores burros é coisa inadmissível) e o mais seco, por sua vez, está levemente poético.