Será que eu vou arruinar tudo se ficar ouvindo Sigur Rós durante o processo criativo? Vá que apareça no meio da história um fiorde absolutamente sem contexto.
Sinestésica
Quando se tem outras coisas
Quase ninguém pode se dar ao luxo de não fazer outras coisas, e escrever e basta. O pior de tudo é que, quando se tem outras coisas, além de tomarem algum tempo, acabam sendo de mais simples execucação e por isso, na grande fila de tarefas, tomam a frente. É porque o processo criativo tem esse tempo morto, que na verdade morto não é, esse tempo circular ou espiralado em que parece que nada evolui. Lidar com ele é complicado para quem não resiste ao prazer de riscar (literalmente) as obrigações da lista de obrigações. “Capítulo tal” é sempre o mais difícil de riscar. Mas vamos lá. Faltam dez. E dez é sempre contagem regressiva.
Voltei
Opa, as desculpas sinceras pelo tempo longe em primeiro lugar, mas a culpa é da própria literatura, e do que vem junto dela. É que, sabe, estou em vias de lançar esse outro livro, esse outro livro chamado Pó de Parede, que é propriamente o meu livro de estréia, e assim eu sempre quis que fosse. Devo ter escondido tão bem o processo de escrevê-lo (durou um ano inteiro), que agora me dizem: mas que livro? Quando tu escreveu? É que só querem saber do livro-que-nem-nasceu-e-já-tem-prêmio. Eu rio de monte e digo Qualé, espera que tu vai gostar. Na verdade, me divirto e me incomodo em iguais proporções, porque hoje não basta ser um escritor velho e barbudo trancado em casa, tem que se colocar a cara nos periódicos e alinhar as estratégias mercadológicas e, por sorte!, na editora posso participar de todas as etapas e todas as decisões (sonho leonino). E, bem, enquanto me envolvo com essas coisas que são e não são literatura, tenho também que tocar o Sinuca, que complica-se cada vez mais. Chegou a hora digamos de começar a resolver tudo que estava aberto, o que leva a sessões torturantes de ficar perguntando coisas para si mesmo, do tipo Tá, mas se ele saiu da cidade, por que ele bla bla bla… e no fim tudo precisa ser convincente. É. Por exemplo, um dos grandes problemas agora é esse: tudo bem, sabemos que o Sinuca não é um livro policial nem nada que demande uma resolução fechadíssima, mas sabemos que, de certa maneira, o livro colocou uns mistérios aqui e ali, e o leitor ficaria muito frustrado se o livro acabasse sem nenhuma resposta. Só para variar, a solução é o equilíbrio. Chegarei lá. De modo que é preciso levar os personagens para passear no parque, e que eles falem, e que eles contem os seus problemas. Hahaha, é justamente assim que começam os mitos & lendas sobre processo criativo, mas fato é que estou apegada a todos eles, que são eus, que são outros, que são os que não fui e os que gostaria de conhecer ou de ter conhecido.
