March 23, 2008
Estou bastante ritualística. Ainda não cheguei ao ponto extremo de ter que vestir certa camiseta ou escrever de pé (li que algum autor de telenovelas precisava fazer isso), mas quase. O chimarrão, por exemplo, virou condição obrigatória. Mas não saia dizendo isso por aí, pois tento fugir dos rótulos gauchescos inclusive escondendo os espaços físicos e criando o meu mundinho mezzo adulterado. O local: agora não consigo mais escrever em casa, mesmo que eu esteja sozinha no apartamento, de modo que é preciso bancar a louca do prédio e descer com o notebook e sentar nas mesinhas em frente à portaria, ou numa cadeira de praia na beira da piscina (preferencialmente à noite, nesse caso). Poderia defender a escolha por esse bizarro espaço de trabalho, alegando mais conforto e sobretudo mais concentração (a internet não chega lá), mas acho que já passou do nível da lógica para entrar no mondo irracional dos rituais mesmo.
Partindo agora para o que faz mais sentido: anotar num bloco as linhas gerais ou os acontecimentos mais relevantes do próximo capítulo, antes de sentar para escrevê-lo. Viver a cena muitas vezes na cabeça antes de passá-la pro papel. O que não é nenhuma novidade, pois está lá nas 10 dicas de Chuck Palahniuk (que estão sei lá onde. Sinto muito, não achei para linkar). De toda a forma, é um processo que me cai bem e evita desperdícios e cenas capengas. Ah. Talvez você não precise saber como a história vai terminar, como dizem categoricamente por aí (eu sei, mas não importa), mas pelo menos você tem que conseguir visualizar uns três ou quatro capítulos pra frente, ou mais. Isso permite que você vá plantando o que for preciso para o bem da trama, sem ter que voltar pra trás e forçar a adição de um elemento ou outro numa cena já constituída.
Um padrão já detectado por terceiros: no primeiro dia de um novo capítulo, sai 5 ou 6 linhas, ou no máximo um parágrafo. O segundo dia deve render uma página, o terceiro, duas, e aumentando até o fim a medida que se ganha segurança e controle sobre a própria criação.
March 12, 2008
Mais três depoimentos extraídos daquele livro que citei no post abaixo. Começa com meu ídolo-mor do ano, segue por um comentário de bom-senso e termina pela piada.
William Faulkner
“Que o escritor se dedique à cirurgia ou à profissão de pedreiro, caso se interesse pela técnica. Não existe meio mecânico algum para se escrever: nenhum atalho. O jovem escritor seria um tolo se seguisse uma teoria. A gente aprende pelos próprios erros; as pessoas só aprendem errando. O bom artista crê que ninguém é suficientemente bom para dar-lhe conselhos. Possui a suprema vaidade. Não importa quanto admire o escritor antigo, quer suplantá-lo…”
Truman Capote
“Já que cada história apresenta seus próprios problemas técnicos, não se pode, evidentemente, generalizar acerca dos mesmos numa base de dois mais dois igual a quatro. Encontrar a forma exata para a nossa narrativa consiste simplesmente em perceber a maneira mais natural de contar a história.”
Sidney Sheldon
“Eu começo a escrever sempre a partir de um personagem, nunca do tema. Tendo isso em mente, dito tudo para minha secretária, que coloca o texto no computador. Eu reviso e, obtida uma primeira cópia, começo a acrescentar ou cortar. A primeira versão chega a 1.200 páginas. Cada livro leva uns dois anos e meio para ser escrito.”
Fala sério, morri instantaneamente na parte do “dito tudo para minha secretária”. Sobretudo porque, mesmo que a última frase diga que ele demora dois anos e meio para escrever o livro, o encadeamento das frases anteriores me fez imaginar que a coisa toda fica pronta num dia, ou que no mínimo a ELIPSE TEMPORAL aponta para a parte onde os ghostwriters começam a trabalhar.
March 7, 2008
Ganhei um livro chamado “Como escrevo?”, organizado por José Domingos de Brito. São depoimentos de escritores sobre o processo criativo, e mais umas biografias que achei pra lá de desnecessárias. Mas os depoimentos são bem interessantes. Ia transcrever aqui os de autores que respeito, divididos em dois ou três posts, mas vou acabar adicionando alguns pela diversão ou pela piada interna, como o da Rachel de Queiroz (”detesto escrever”).
José Saramago
“Tenho uma disciplina que consiste em escrever duas páginas diárias. Formalmente não escrevo mais do que isso. Pode parecer pouco, mas duas páginas diárias, ao, fim de um ano, serão um livro com 800 páginas. Mesmo que pudesse continuar depois da segunda página, não continuo. Apenas acabo a oração, o período ou a frase, o resto fica pra amanhã”
Philip Roth
“Começar um livro é desagradável. Fico completamente indeciso quanto ao personagem e sua situação, e é com um personagem em determinada situação que tenho de começar. Pior do que não conhecer o assunto é não saber como tratá-lo porque, definitivamente, isso é tudo. (…) Com freqüência tenho de escrever cem páginas ou mais, antes de conseguir um parágrafo cheio de vida.”
Vladimir Nabokov
“O esquema vem antes da coisa. Preencho os claros da palavra cruzada, em qualquer parte, com toda liberdade. Anoto os trechos em fichas, até terminar o romance. Meu esquema é flexível, mas sou bastante exigente quanto aos meus instrumentos de trabalho: fichas de cartolina com pauta e lápis bem apontados, macios, com borracha.”
Rachel de Queiroz
“Detesto escrever. Não me lembro de escrever voluntariamente nada. O romance não é voluntário. É uma jornada que você inicia e que não se pode deixar no meio do caminho. Morro de preguiça”.
March 5, 2008
* Quando acontece algum tipo de bloqueio ou insatisfação com o que está escrito, e o escritor empaca na texto, é certo que vai pensar: “nunca mais vou conseguir sair desse lugar da narrativa/poema. Nunca mais vou conseguir escrever”. É incrível. E isso mesmo que ele saiba que já venceu milhões de vezes situações idênticas. Mas a crise literária atual sempre parece mais dolorosa e definitiva. Algo como o fim de relacionamento da vez. Não sei se há perspectivas de mudanças. Acho que com sessenta anos vai continuar sendo exatamente assim.
* Nessas crises meio-de-capítulo, a vida inteira sofre seus abalos, em maior ou menor grau. Ansiedade sem fim, irritação (eu diria que tpm fora de hora, mas sounds like feminism). Terminar o capítulo da vez, por outro lado, é alegria se espalhando em ondas multicoloridas, violãozinho tocando no fundo, pessoas flutuantes em volta fazendo enormes bolas de chiclete.
* Isso até ter que pensar no começo do próximo.