February 26, 2008
Mantenho implicância declarada com livros de muito diálogos. Diálogos, sabe, aqueles com travessão. Por eles, não desisto de qualquer livro (seria muita intransigência fazer cara feia para Crime & Castigo, por exemplo), mas o fator Presença Excessiva de Diálogos pode, caso eu não tenha uma forte motivação para ler tal obra, fazer com que eu a recoloque na prateleira da livraria.Há obras nas quais o diálogo é fundamental, e a narração apenas uma super-cola unindo a ponta de um diálogo à ponta de outro. Nesses diálogos, as pessoas dizem ou escondem o que pensam, tomam decisões juntas, enfim, tocam a história pra frente.Tudo bem, tudo bem, procuro manter uma Política de Boa Vizinhança, mas prefiro transitar no mundo dos sem diálogo, dos de poucas palavras, ou dos diálogos disfarçados. No meio da narração, dando uma vírgula e começando com maiúscula como faz Saramago que não inventou nada, Tipo assim. Ou com nova linha e parágrafo, mas simplesmente excluindo o travessão (ou as aspas americanas), como tenho visto por aí (Cormac McCarthy, Jonathan Safran Foer). Parece truque baixo, mas, como leitora, confesso que funciona.
Estou usando travessões no Sinuca, mas são bem raros. Prefiro discurso indireto ou diálogo jogado no meio do resto.
“Puxe o primeiro pedaço de mim: tenho cinco anos e a professora do jardim de infância me pergunta: como assim nada, querido? Meus bracinhos soltam os seus joelhos. Nem bombeiro? Ela se abaixa para me olhar de frente. E médico, que tal médico hein? Mexe nos meus cabelos e depois levanta de novo e se afasta. Vai até o armário, que está cheio dos nossos desenhos colados na porta com durex. Mesmo de um pouco longe, eu posso reconhecer os meus. Eu ainda poderia reconhecer os meus vinte anos depois, porque as minhas pessoas tinham caudas ou antenas.”
Sabe o que é, colocar nova linha-parágrafo-travessão é como fazer com que a boca do personagem se mova com extrema clareza, e isso poucas vezes me interessa no tipo de atmosfera que estou tentando criar. Também tenho a impressão de que colocar um travessão é como dar pausa no mundo do romance por alguns instantes, tudo em pausa para que o personagem fale.
February 18, 2008
O objeto artístico é um objeto imaculado, pensa a maioria. Daí porque amigos e familiares surtam cada vez que menciono os verbos “reescrever” ou “revisar”. Podem nem ter lido o texto - ou o trecho - em questão, mas definitivamente não querem que ele seja alterado. E não adianta provar que mexer é para o bem da literatura. Já coloquei texto lado a lado, primeira e segunda versão e, mesmo o sujeito admitindo que o texto retrabalhado estava bem melhor, um dia basta para que esqueça. Uma frase (”vou ali revisar o capítulo 7″) basta para que ele volte à plataforma do-que-não-deve-ser-mexido: “não por favor, o capítulo 7 de novo não!” Texto para ele é objeto mágico, e alterar aquilo que desceu por inspiração é sacrilégio (não sabe que inspiração não é bem uma coisa que existe).
A obra pronta, aí sim, deve dar a ilusão de que nasceu toda junta e bem montada. Porque, se o escritor quando escreve tem n opções (mata ou não mata o personagem x, faz com que y viaje ou fique aqui, casa a com b ou b com c), o texto que-deu-certo esconde todas elas, de modo que o leitor enxerga, e acredita que aquele que vê não é só o melhor, mas o único caminho possível. Em outras palavras, o leitor não enxerga o trabalho que teve o escritor. Isso não sou eu que estou dizendo, roubei de alguma aula do Assis Brasil (se cito a fonte, não há mais roubo, portanto está tudo bem).
Como teste, experimente propor a alguém que leu um texto seu uma outra resolução para ele. Se no final dois personagem se reencontram, diga: e se eles não se reencontrassem? Se o texto estiver bem escrito, o seu leitor vai ficar atordoado, afinal ele, além de não ter imaginado outro desfecho, agora que o enxerga acha simplesmente que a nova opção arruinaria toda a sua história. Ponto, a prova definitiva de que o texto, do jeito que está, convence. Mas também não leve isso tão a sério, porque assim como tipos de escritores são vários, também os de leitores não se pode contar.
February 14, 2008
Vale a pena perder um tempo, um bom tempo, na escolha do narrador quando se vai escrever alguma coisa. Para mim, metade do dar-certo-romanesco está aí. Cito dois clássicos como exemplo: se o Grande Gatsby fosse narrado pelo personagem-título, o que teríamos? O foco do enredo completamente desvendado, quando a graça toda é o Gatsby ser aquele cara misterioso e que exerce fascínio, ao mesmo tempo que certa repulsa, em Nick Carraway (o narrador). Mesma coisa em Lolita. Se, nem que fosse por um instante apenas, o leitor tivesse acesso aos pensamentos de Lolita, não acho exagero dizer que tudo estaria automaticamente arruinado. Trata-se de dois casos em que todo o enredo depende do fato de não entendermos muito bem uma personagem. Todo o enredo depende de coisas que estão escondidas e que não serão reveladas. No caso do Sinuca, a questão é outra. A morte de uma garota num acidente de trânsito gera um conflito diferente em cada personagem. Cada um tem o sua maneira de lidar com a ausência de Antônia. A escolha parece óbvia, não? Múltiplos narradores contando essa história.
São três principais, e mais alguns que vão aparecer eventualmente, do tipo por um ou dois capítulos ao longo do livro. O difícil no início foi criar uma voz diferente para cada narrador, o que não se resolve simplesmente inserindo cacoetes lingüísticos neles. Isso é meio golpe baixo. É claro que, se um tem uma palavra tão forte e rara no vocabulário quanto “degringolar”, outro não pode ter a mesma, mas isso é só um pedaço insignificante do narrador. Nesse começo, a porcentagem de erro é bem alta. Duzentas mil revisões até acertar. Depois, lá pelo terceiro capítulo com a mesma voz, acho que a gente pega o jeito e aprende o tipo de coisa que cada personagem pensa, a maneira como pensam, e também de que forma esses pensamentos se encadeiam. Tenho a impressão de que tende a se tornar cada vez mais fácil abrir um novo capítulo já com a voz do narrador afinada. Mas ainda é cedo para afirmar qualquer coisa.
February 12, 2008
Em muitos filmes, ou livros, ou ainda peças de teatro, a entrada de um certo personagem em cena demora a acontecer. E a gente está louco para vê-lo agindo, porque todos os outros personagens já falaram uma porção de coisas a respeito desse outro e queremos muito saber se ele é tudo aquilo que dizem e o que vai fazer e quais serão as resoluções dos mistérios que o envolvem. O Emiliano Urbim esses dias deu um exemplo interessante de uma minissérie dos anos 80 criada pelo Doc Comparato e o Gabriel Garcia Márquez:
“Era uma história que se passava em mansão que receberia uma madame, cuja chegada ia mexer com a vida de todos os empregados. E aí eles ficavam quebrando a cabeça para saber como que ela ia fazer uma chegada triunfal, arrebatadora. Madame chega de helicóptero? Madame chega de carruagem? Madame chega brigando? “Madame chega aos poucos”, disse o Garcia Márquez. E aí, a cada cena vinham chegando as malas, as roupas, jóias, quadros, de forma que a personagem estava sempre sendo apresentada e comentada, mesmo que não estivesse presente fisicamente.”
Essa é uma personagem que tem a sua entrada, digamos, retardada, de forma que sabemos dela pelos outros ou por seus objetos. Tende a funcionar muito bem, porque cria uma grande expectativa. Mas e se a personagem não aparecesse? Comecei a pensar sobre isso no mestrado, de forma que acabou se transformando no tema da minha dissertação. “Personagem Ausente” é o termo que passei a usar para esses que são comentados pelos outros personagens e que digamos que mandam na narrativa, mesmo sem aparecer. A narrativa acontece impulsionada por eles. Esperando Godot, do Samuel Beckett, é um caso clássico. Um outro belo exemplo é Twin Peaks, a série do David Lynch: todos estão em função da morte de Laura Palmer e todos os conflitos dos personagens envolvem a Laura Palmer. Ela, contudo, jamais aparece. Claro, está morta desde o início. Mas ela também não aparece em flashback (como provavelmente aconteceria se David Lynch não fosse realmente bom), o que faz dela uma ausente realmente ausente.
O Sinuca tem uma personagem ausente. É ela que faz tudo acontecer. Ela não age, porque está morta, mas é justamente a morte dela (a ausência) que faz com que todos os outros ajam. Foi um processo estranho, quero dizer, primeiro surgir a idéia de uma estrutura narrativa, para aí então pensar numa história em que o uso dessa estrutura fizesse sentido.
February 11, 2008
Mais fácil do que escrever um romance é escrever um conto, sendo esse “fácil” mera ilusão ligada ao tamanho de um e de outro. Digamos então que contos ruins são mais fáceis de escrever do que romances ruins. Ao menos a gente acaba mais rápido os primeiros do que os segundos e, como todos nós temos pressa de nos tornarmos escritores, hm, parece ótimo. Também é mais fácil que alguém leia um conto nosso do que um romance, quero dizer, para dar uma opinião. E escrever um romance inteiro para descobrir que está um lixo, bem… mais fácil escrever um conto.
E outra coisa colabora para que o conto seja o formato preferido do iniciante: são eles o objeto de trabalho das oficinas literárias, e não as narrativas longas (por motivos óbvios de tempo e pedagogia).
Mas há pessoas que nasceram para ser contistas, porque elas têm o que podemos chamar de idéias-conto. E, como resultado, seus contos são ótimos e profundos. É inegável que Raymond Carver não pode parar de escrever short stories, e que Cortázar se sai melhor nelas. Há pessoas também que não nasceram para ser contistas: elas têm idéias-romance, mas escrevem contos porque escrever contos é tomar fôlego para o que querem no fim alcançar, que é a narrativa longa.
Meu nome é Carol Bensimon, tenho 25 anos e comecei pelo conto. Mas sempre tive idéias-romance. Depois do conto fui para coisas mais pesadas, as novelinhas (o inhas para dizer que são um pouco menores do que uma novela habitual). Agora eu estou escrevendo um romance, ou uma novela (já bastam as discussões acadêmicas sobre a diferença entre os termos. Pegue o que soa melhor e esqueça).
Centenas de novidades no mundo romance. Personagens mais complexos, e em maior número. Uma ação que deve durar um bom tempo, conflitos que se abrem em outros, uma pista que se coloca e que só vai fazer sentido cinqüenta páginas adiante, enfim, tudo novo. Muitas páginas de notas, planos com canetas quatro cores, pesquisa sobre carros, sobre hockey, sobre plantão, sobre serrarias, sobre sinuca.
A idéia desse blog é discutir processo criativo, usando de ponto de partida a experiência que estou tendo com o Sinuca embaixo d’água. Não vou de maneira nenhuma entrar em coisas que dizem respeito à história do meu livro, porque seria ao mesmo tempo chato e estraga-prazeres.
Acho que assunto não vai faltar.