April 30, 2008

Economia?

Category: Mitos & Lendas — bensimon @ 7:04 pm

Duas vagas reflexões:

1) A pobre da descrição foi atualmente jogada pra terceiríssimo plano na literatura. Tudo bem, eu não estou interessada em ler duas páginas sobre como é um sofá (coisas dessas podiam acontecer no século XIX), mas o outro extremo, o extremo “tendência para o novo milênio”, o da economia total, tampouco me agrada. Qual a relação entre uma coisa ou outra? É que nessas de economia do texto, de limpar excessos e etc (tudo muito saudável se bem-empregado), geralmente sobra para a descrição, e freqüentemente estamos lendo livros nos quais dois personagens discutem numa sala branca e vazia. O que me leva ao outro mal da economia:

2) Para começar, ilustro. Uma aluna minha estava lendo Orgulho e Preconceito para o colégio. Na última aula, perguntei se tinha terminado, e o qual era sua opinião sobre. Disse que gostou muito, e ficou chateada por ter acabado o livro, uma vez que já estava apegada aos personagens. Natualmente pensei, Sim, é isso que os bons romances nos causam, uma simpatia tão grande com os personagens que ficamos sempre chateados quando o fim chega. Bem, agora a relação disso com o “culto ao essencial”: me parece que o essencial levado ao extremo coloca esse processo em risco. Ora, é impossível me apegar ao personagem que só diz, só pensa e só age com o essencial. Nunca vou ter a sensação de que conheço esse personagem. Provavelmente, ele será do início ao fim da obra, não mais do que um tipo. E o mesmo acontece com cenas. Dificilmente conseguirei me sentir envolvida, como leitora, por uma cena de uma página. É preciso tempo. Tempo de contar como é esse lugar, o que sente essa pessoa, o que faz essa pessoa, e como muda ao longo da cena esse lugar, esses sentimentos, essas ações. Cada cena é um pequeno gráfico.

Uma tentativa de provar alguma coisa:

O segredo, um dos segredos, está no equilíbrio entre três partes (isso eu acabo de inventar, vamos ver se funciona): ação-descrição-pensamento. Intercalar as três coisas é que faz o texto fluir. Por exemplo, na cena de uma luta entre duas pessoas, a leitura se torna muito difícil caso o escritor tenha optado por uma reunião de frases que relatam as ações de cada um. Fulano agarra o pé de Beltrano. Beltrano cai. Beltrano tenta tirar a arma do coldre. Fulano… e assim vai. Se isso durar três linhas, já é o suficiente pra dizer: como é que é? E ter que voltar e ler todas as ações novamente. Se, por outro lado, as ações da luta estiverem misturadas com pensamentos e descrições - sangue nos dentes, lua cheia, um cachorro que passa - o texto já dá uma respirada legal.Hm, vou aplico isso agora em dois parágrafos meus. Escolhi por acaso, olhei, e vi que acontece com eles exatamente o que acabo de descrever. Guardadas as diferenças de ritmo e da natureza dos narradores, a alternância entre ações, descrições e pensamento é constante. Marquei com (A), (D) e (P) cada final de frase.O primeiro parágrafo é do conto “Vaca Amarela”, o segundo, da novela “A Caixa”.

“O vô do Rica usava botas pretas impressionantes e tinha uma fazenda dessas onde máquinas fazem o leite sair das vacas(D). O que impressionava também é que era careca de não ter nenhum fio de cabelo(D). Meu pai dizia que a culpa era da fazenda, que o leite estava azedando nos galpões porque o do Uruguai era mais barato e o nosso governo não estava nem aí, mesmo quando discursaram na frente do Palácio e cantaram um pouquinho e dormiram(A). Podia ser mesmo(P). O vô do Rica tinha falado mal dos uruguaios(A). Disse assim um dia: são todos uns picaretas, esses uruguaios(A)! Eu não conhecia nenhum(P). Fiquei quieta(P). E também não conhecia a fazenda e nem sabia se era verdade que o leite azedava(P)”.

“Tomás esperava Alice voltar nessa noite que era um pouco todas as noites da sua infância(A). Em volta, o escuro e o sono do bairro criavam uma falsa harmonia, todo detalhe escondido, todo defeito na sombra(D). E como o dois-cinco-um estava no topo de uma ladeira, a vista então diagonal das ruas bem traçadas com as casas todas iguais(D), Tomás diria que as árvores poderiam ser de esponja, as paredes cortadas com estilete, tudo maquete, onde os lugares têm aquela perfeição que não alcançam nunca quando se tornam reais(P)”.

February 18, 2008

Ilusão de que nasceu pronto

Category: Mitos & Lendas — bensimon @ 3:12 pm

O objeto artístico é um objeto imaculado, pensa a maioria. Daí porque amigos e familiares surtam cada vez que menciono os verbos “reescrever” ou “revisar”. Podem nem ter lido o texto - ou o trecho - em questão, mas definitivamente não querem que ele seja alterado. E não adianta provar que mexer é para o bem da literatura. Já coloquei texto lado a lado, primeira e segunda versão e, mesmo o sujeito admitindo que o texto retrabalhado estava bem melhor, um dia basta para que esqueça. Uma frase (”vou ali revisar o capítulo 7″) basta para que ele volte à plataforma do-que-não-deve-ser-mexido: “não por favor, o capítulo 7 de novo não!” Texto para ele é objeto mágico, e alterar aquilo que desceu por inspiração é sacrilégio (não sabe que inspiração não é bem uma coisa que existe).

A obra pronta, aí sim, deve dar a ilusão de que nasceu toda junta e bem montada. Porque, se o escritor quando escreve tem n opções (mata ou não mata o personagem x, faz com que y viaje ou fique aqui, casa a com b ou b com c), o texto que-deu-certo esconde todas elas, de modo que o leitor enxerga, e acredita que aquele que vê não é só o melhor, mas o único caminho possível. Em outras palavras, o leitor não enxerga o trabalho que teve o escritor. Isso não sou eu que estou dizendo, roubei de alguma aula do Assis Brasil (se cito a fonte, não há mais roubo, portanto está tudo bem).

Como teste, experimente propor a alguém que leu um texto seu uma outra resolução para ele. Se no final dois personagem se reencontram, diga: e se eles não se reencontrassem? Se o texto estiver bem escrito, o seu leitor vai ficar atordoado, afinal ele, além de não ter imaginado outro desfecho, agora que o enxerga acha simplesmente que a nova opção arruinaria toda a sua história. Ponto, a prova definitiva de que o texto, do jeito que está, convence. Mas também não leve isso tão a sério, porque assim como tipos de escritores são vários, também os de leitores não se pode contar.