Alguns sabem, outros não: o Sinuca embaixo d’água foi uma das partes da dissertação de mestrado que defendi em setembro. Junto com ele, havia um artigo sobre o que chamei de personagem ausente (nesse post falei um pouco sobre isso, embora o assunto fosse, na época, apenas uma vaga idéia). É curioso ir para uma banca de dissertação com o formato romance + parte teórica, e obviamente os professores tampouco estão habituados a isso, de modo que eu temia muito que toda a discussão fosse focada no capítulo teórico da dissertação e que o romance passasse em branco. Acredite, já vi isso acontecer. Bom, no fim das contas, não foi assim que se passou, e os comentários sobre o Sinuca foram bem interessantes, sobretudo os da Janea Tutikian (devo dizer, sem falsa humildade, que o pessoal da banca gostou muito do romance, o que me tranqüilizou imensamente, e ainda mais levando em conta que a versão apresentada era uma versão que eu já nem gostava mais. Ui ui ui, esses escritores).
Mas o mais interessante foi a reação que o último capítulo causou na Jane: ela odiou. Ela disse que parecia aqueles histórias que nos envolvem até o limite para depois acabarem num “então era tudo um sonho” ou sei lá. Resumindo, ela argumentou, com bastante propriedade, que aquele capítulo estragava tudo. Ok, só pra esclarecer: não era um sonho, mas era uma espécie de interferência do autor que me parecia bonito e eficiente na época. Só que infelizmente - ou felizmente, porque pior seria ter percebido isso ainda mais tarde, ou simplesmente não ter percebido de todo - o capítulo não pôde resistir à distância temporal e à argumentação da Jane. Isso não significa, claro, simplesmente retirá-lo e fazer do antepenúltimo um último. O novo último precisa ganhar a cara de último. De toda a maneira, todos os capítulos estão virando outra coisa. E com isso vejo que até os personagem se transformam (o que prova ao descrentes que a forma define o conteúdo): o menos inteligente de todos torna-se mais perspicaz (descoberta número sei lá o que: narradores burros é coisa inadmissível) e o mais seco, por sua vez, está levemente poético.
O que aconteceu com o mestrado
Banca
Amanhã vou defender minha dissertação. Aquela sobre personagem ausente. Certamente farei um post sobre isso. Por enquanto, estava era sofrendo o diabo para escrever o textinho formal de apresentação que tenho que ler. Mas tentei colocar umas pitadas de informalismo, pretensão e provocações nele. Obviamente não vai prestar.
Personagem ausente
Em muitos filmes, ou livros, ou ainda peças de teatro, a entrada de um certo personagem em cena demora a acontecer. E a gente está louco para vê-lo agindo, porque todos os outros personagens já falaram uma porção de coisas a respeito desse outro e queremos muito saber se ele é tudo aquilo que dizem e o que vai fazer e quais serão as resoluções dos mistérios que o envolvem. O Emiliano Urbim esses dias deu um exemplo interessante de uma minissérie dos anos 80 criada pelo Doc Comparato e o Gabriel Garcia Márquez:
“Era uma história que se passava em mansão que receberia uma madame, cuja chegada ia mexer com a vida de todos os empregados. E aí eles ficavam quebrando a cabeça para saber como que ela ia fazer uma chegada triunfal, arrebatadora. Madame chega de helicóptero? Madame chega de carruagem? Madame chega brigando? “Madame chega aos poucos”, disse o Garcia Márquez. E aí, a cada cena vinham chegando as malas, as roupas, jóias, quadros, de forma que a personagem estava sempre sendo apresentada e comentada, mesmo que não estivesse presente fisicamente.”
Essa é uma personagem que tem a sua entrada, digamos, retardada, de forma que sabemos dela pelos outros ou por seus objetos. Tende a funcionar muito bem, porque cria uma grande expectativa. Mas e se a personagem não aparecesse? Comecei a pensar sobre isso no mestrado, de forma que acabou se transformando no tema da minha dissertação. “Personagem Ausente” é o termo que passei a usar para esses que são comentados pelos outros personagens e que digamos que mandam na narrativa, mesmo sem aparecer. A narrativa acontece impulsionada por eles. Esperando Godot, do Samuel Beckett, é um caso clássico. Um outro belo exemplo é Twin Peaks, a série do David Lynch: todos estão em função da morte de Laura Palmer e todos os conflitos dos personagens envolvem a Laura Palmer. Ela, contudo, jamais aparece. Claro, está morta desde o início. Mas ela também não aparece em flashback (como provavelmente aconteceria se David Lynch não fosse realmente bom), o que faz dela uma ausente realmente ausente.
O Sinuca tem uma personagem ausente. É ela que faz tudo acontecer. Ela não age, porque está morta, mas é justamente a morte dela (a ausência) que faz com que todos os outros ajam. Foi um processo estranho, quero dizer, primeiro surgir a idéia de uma estrutura narrativa, para aí então pensar numa história em que o uso dessa estrutura fizesse sentido.
