June 30, 2008

Estímulos visuais

Category: Uncategorized — bensimon @ 8:57 pm

Desculpa aí se pesar nos respectivos computadores, mas separei umas imagens aqui que me ajudaram no processo criativo do romance. Pra quase tudo que surge, procuro imagem. A maioria roubo do flickr, e se me pedirem os créditos, jamais saberei informar. Uma dessas aí roubei do orkut. E as duas últimas são do Gabriel Pillar.

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June 27, 2008

Quatro

Category: Processo Criativo — bensimon @ 12:14 am

4 capítulos. 10 dias. Pausa para o ravioli à peperonata, que já deve estar a caminho.
Estou escrevendo o último capítulo narrado pelo Camilo, um personagem que é o oposto completo do que sou, mas mesmo assim - ou talvez exatamente por isso - acabei me apegando a ele de uma maneira quase-além da profissional. Sério. Saber que é o último capítulo dele me dá um nozinho na garganta, e por isso tô numas de caprichar de verdade. Parece que me preocupa a vida que ele vai ter depois do romance. Algo do tipo: Camilo conseguirá se salvar? É insano, eu sei. Ele não existe para além do romance, eu sei. Mas é o que está havendo, minha gente. E juro que nunca mais tiro sarro de escritor que diz que o personagem tomou vida e foi fazendo a história sozinho. Vou escrever cem vezes isso num caderno pautado (para obviamente não cumprir depois).

June 10, 2008

Oh, droga

Category: Processo Criativo — bensimon @ 10:42 pm

Momento da mais pura desestabilidade emocional. Em vésperas de Pó de Parede em caixotes, o Sinuca entra em colapso por um telefonema, que me informa que devo entregar o livro nos primeiros dias de julho, e não até o fim de julho (o contrato dá margem às mais diversas interpretações). Com 9 capítulos ainda para escrever, dos 29 que são/eram o total, restam as medidas drásticas. Até agora, foi possível listar três:

a) Malhar três capítulos. Já reestruturei as coisas para caberem no novo formato. Verdade, parece que sobrariam, esses três capítulos ainda não escritos. De qualquer maneira, não é nada que eu não possa mudar, depois da apresentação formal à Funarte.

b) Todos os compromissos sociais, que não tenham estreita relação com a divulgação do Pó de Parede, foram cancelados.

c) Cogito um isolamento no sítio do meu vô. Um ou dois dias absolutamente só. Se der certo, repetir até o final romanesco.

June 7, 2008

Spots mentais

Category: Técnica & Assemelhados — bensimon @ 5:27 pm

Não sei como funciona pros outros isso de descrever locais, mas pra mim é: num primeiro momento, enxergo o espaço físico num belo plano geral. Nisso concentro até que a cena ganhe mais foco e comece a se encher de mais detalhes. Mas aí está. Isso é só um processo que se passa na minha cabeça, e que não posso - ainda - colocar no papel. Pois não há plano geral na literatura. Na literatura, é uma coisa, e depois a outra, e depois a outra. Tudo bem, sei que me meto em assunto delicado e que talvez eu não tenha a competência para discutir. Ainda assim, tentarei.

Se no cinema pode-se mostrar tudo com uma imagem, pra só depois ir se chegando nos detalhes (ou nem), na literatura é necessário uma seqüência de frases, ou, que seja, no mínimo uma seqüência de palavras encadeadas na frase, e em determinada ordem. Não posso mostrar a casa cercada por árvores e uma pessoa apertando a campainha, tudo ao mesmo tempo. Preciso primeiro falar da casa, depois da pessoa, depois das árvores. Ou falar da casa, das árvores, e da pessoa? Ou da pessoa, e afastar pra casa, e afastar pras árvores? Tem que se enfrentar esse tipo de decisão o tempo inteiro.

Pra chegar às árvores, à casa e à pessoa, também foi um longo caminho (só não esqueça que isso de árvore, de casa e de pessoa apertando a campainha é um exemplo idiota, meramente didático). Porque, na minha cabeça, vejo mais que esses três elementos. Vejo postes, carros, vejo lua, vejo outras casas. E preciso ver isso, ver além do que pretendo dizer, para daí fazer uma seleção, pois nem tudo vai interessar à história. Preciso começar a separar as coisas nas quais vejo função, das coisas absolutamente dispensáveis.

Começo a jogar uns spotzinhos mentais sobre o que interessa. Essas vão parar no texto. Se não for pelo sentido da narativa, que seja pelo ritmo ou pelo som. Depois das coisas escolhidas, vem o encadeamento dos detalhes dessa cena. Claro que isso não é um processo tão lógico. No meu caso, é mais uma questão de ir jogando frases no word e copiando e colando e invertendo. E há um momento em que me dá estranha sensação de que tornou-se difícil imaginar outra maneira de descrever aquela cena, uma sensação de que as coisas se colaram de um modo quase definitivo. Para o bem ou para o mal.

May 27, 2008

Sinestésica

Category: Processo Criativo — bensimon @ 5:37 pm

Será que eu vou arruinar tudo se ficar ouvindo Sigur Rós durante o processo criativo? Vá que apareça no meio da história um fiorde absolutamente sem contexto.

May 26, 2008

Quando se tem outras coisas

Category: Mondo Literário, Processo Criativo — bensimon @ 7:47 pm

Quase ninguém pode se dar ao luxo de não fazer outras coisas, e escrever e basta. O pior de tudo é que, quando se tem outras coisas, além de tomarem algum tempo, acabam sendo de mais simples execucação e por isso, na grande fila de tarefas, tomam a frente. É porque o processo criativo tem esse tempo morto, que na verdade morto não é, esse tempo circular ou espiralado em que parece que nada evolui. Lidar com ele é complicado para quem não resiste ao prazer de riscar (literalmente) as obrigações da lista de obrigações. “Capítulo tal” é sempre o mais difícil de riscar. Mas vamos lá. Faltam dez. E dez é sempre contagem regressiva.

May 20, 2008

Voltei

Category: Mondo Literário, Processo Criativo — bensimon @ 9:42 pm

Opa, as desculpas sinceras pelo tempo longe em primeiro lugar, mas a culpa é da própria literatura, e do que vem junto dela. É que, sabe, estou em vias de lançar esse outro livro, esse outro livro chamado Pó de Parede, que é propriamente o meu livro de estréia, e assim eu sempre quis que fosse. Devo ter escondido tão bem o processo de escrevê-lo (durou um ano inteiro), que agora me dizem: mas que livro? Quando tu escreveu? É que só querem saber do livro-que-nem-nasceu-e-já-tem-prêmio. Eu rio de monte e digo Qualé, espera que tu vai gostar. Na verdade, me divirto e me incomodo em iguais proporções, porque hoje não basta ser um escritor velho e barbudo trancado em casa, tem que se colocar a cara nos periódicos e alinhar as estratégias mercadológicas e, por sorte!, na editora posso participar de todas as etapas e todas as decisões (sonho leonino). E, bem, enquanto me envolvo com essas coisas que são e não são literatura, tenho também que tocar o Sinuca, que complica-se cada vez mais. Chegou a hora digamos de começar a resolver tudo que estava aberto, o que leva a sessões torturantes de ficar perguntando coisas para si mesmo, do tipo Tá, mas se ele saiu da cidade, por que ele bla bla bla… e no fim tudo precisa ser convincente. É. Por exemplo, um dos grandes problemas agora é esse: tudo bem, sabemos que o Sinuca não é um livro policial nem nada que demande uma resolução fechadíssima, mas sabemos que, de certa maneira, o livro colocou uns mistérios aqui e ali, e o leitor ficaria muito frustrado se o livro acabasse sem nenhuma resposta. Só para variar, a solução é o equilíbrio. Chegarei lá. De modo que é preciso levar os personagens para passear no parque, e que eles falem, e que eles contem os seus problemas. Hahaha, é justamente assim que começam os mitos & lendas sobre processo criativo, mas fato é que estou apegada a todos eles, que são eus, que são outros, que são os que não fui e os que gostaria de conhecer ou de ter conhecido.

April 30, 2008

Economia?

Category: Mitos & Lendas — bensimon @ 7:04 pm

Duas vagas reflexões:

1) A pobre da descrição foi atualmente jogada pra terceiríssimo plano na literatura. Tudo bem, eu não estou interessada em ler duas páginas sobre como é um sofá (coisas dessas podiam acontecer no século XIX), mas o outro extremo, o extremo “tendência para o novo milênio”, o da economia total, tampouco me agrada. Qual a relação entre uma coisa ou outra? É que nessas de economia do texto, de limpar excessos e etc (tudo muito saudável se bem-empregado), geralmente sobra para a descrição, e freqüentemente estamos lendo livros nos quais dois personagens discutem numa sala branca e vazia. O que me leva ao outro mal da economia:

2) Para começar, ilustro. Uma aluna minha estava lendo Orgulho e Preconceito para o colégio. Na última aula, perguntei se tinha terminado, e o qual era sua opinião sobre. Disse que gostou muito, e ficou chateada por ter acabado o livro, uma vez que já estava apegada aos personagens. Natualmente pensei, Sim, é isso que os bons romances nos causam, uma simpatia tão grande com os personagens que ficamos sempre chateados quando o fim chega. Bem, agora a relação disso com o “culto ao essencial”: me parece que o essencial levado ao extremo coloca esse processo em risco. Ora, é impossível me apegar ao personagem que só diz, só pensa e só age com o essencial. Nunca vou ter a sensação de que conheço esse personagem. Provavelmente, ele será do início ao fim da obra, não mais do que um tipo. E o mesmo acontece com cenas. Dificilmente conseguirei me sentir envolvida, como leitora, por uma cena de uma página. É preciso tempo. Tempo de contar como é esse lugar, o que sente essa pessoa, o que faz essa pessoa, e como muda ao longo da cena esse lugar, esses sentimentos, essas ações. Cada cena é um pequeno gráfico.

Uma tentativa de provar alguma coisa:

O segredo, um dos segredos, está no equilíbrio entre três partes (isso eu acabo de inventar, vamos ver se funciona): ação-descrição-pensamento. Intercalar as três coisas é que faz o texto fluir. Por exemplo, na cena de uma luta entre duas pessoas, a leitura se torna muito difícil caso o escritor tenha optado por uma reunião de frases que relatam as ações de cada um. Fulano agarra o pé de Beltrano. Beltrano cai. Beltrano tenta tirar a arma do coldre. Fulano… e assim vai. Se isso durar três linhas, já é o suficiente pra dizer: como é que é? E ter que voltar e ler todas as ações novamente. Se, por outro lado, as ações da luta estiverem misturadas com pensamentos e descrições - sangue nos dentes, lua cheia, um cachorro que passa - o texto já dá uma respirada legal.Hm, vou aplico isso agora em dois parágrafos meus. Escolhi por acaso, olhei, e vi que acontece com eles exatamente o que acabo de descrever. Guardadas as diferenças de ritmo e da natureza dos narradores, a alternância entre ações, descrições e pensamento é constante. Marquei com (A), (D) e (P) cada final de frase.O primeiro parágrafo é do conto “Vaca Amarela”, o segundo, da novela “A Caixa”.

“O vô do Rica usava botas pretas impressionantes e tinha uma fazenda dessas onde máquinas fazem o leite sair das vacas(D). O que impressionava também é que era careca de não ter nenhum fio de cabelo(D). Meu pai dizia que a culpa era da fazenda, que o leite estava azedando nos galpões porque o do Uruguai era mais barato e o nosso governo não estava nem aí, mesmo quando discursaram na frente do Palácio e cantaram um pouquinho e dormiram(A). Podia ser mesmo(P). O vô do Rica tinha falado mal dos uruguaios(A). Disse assim um dia: são todos uns picaretas, esses uruguaios(A)! Eu não conhecia nenhum(P). Fiquei quieta(P). E também não conhecia a fazenda e nem sabia se era verdade que o leite azedava(P)”.

“Tomás esperava Alice voltar nessa noite que era um pouco todas as noites da sua infância(A). Em volta, o escuro e o sono do bairro criavam uma falsa harmonia, todo detalhe escondido, todo defeito na sombra(D). E como o dois-cinco-um estava no topo de uma ladeira, a vista então diagonal das ruas bem traçadas com as casas todas iguais(D), Tomás diria que as árvores poderiam ser de esponja, as paredes cortadas com estilete, tudo maquete, onde os lugares têm aquela perfeição que não alcançam nunca quando se tornam reais(P)”.

April 23, 2008

A Literatura em Perigo

Category: Técnica & Assemelhados — bensimon @ 1:31 pm

Acabo de publicar esse post no meu blog pessoal, e decidi publicá-lo aqui também. Talvez faça até mais sentido aqui.

Depois de ver dois professores encantados com La Littérature en Péril (A Literatura em Perigo), de Tzvetan Todorov, resolvi finalmente encará-lo (e dizer “encarar” não é lá muito justo, uma vez que o livro é fininho fininho). Todorov é um dos grandes caras da teoria da literatura. Nesse livro, porém, de 2007, não há nada de acadêmico. Alguns dizem inclusive que é uma espécie de mea culpa de fim de vida. Explico: Todorov foi um dos teóricos que transformou o estudo da literatura. Antes baseado em biografia de autor e achismos sobre o sentido do texto, passou-se a encarar o texto em si como objeto de estudo a fim de analisar os seus mecanismos.

Mas Todorov nos relata que, na França, isso teve efeitos devastadores no ensino da literatura em colégios, pois os professores fazem com que crianças e adolescentes analisem as obras dentro dessa perspectiva. Ou seja, ao invés de pensar no que o inseto gigante de A Metamorfose está nos dizendo, nos valores transmitidos pela obra, no, tenho medo de usar essa palavra e uso com ressalva, mas vá lá, no sentido da obra, pergunta-se aos alunos que tipo de narrador o texto utiliza, pede-se definições e demonstrações de termos técnicos, como analepses e prolepses, e assim por diante. Tem cabimento? Nenhum.

Como resultado disso, ainda segundo Todorov, cada vez mais as pessoas se afastam da literatura (ok, além dos n outros motivos que nós podemos declamar em coro). E, ao analisar o que está implicado nessa crise da literatura, o autor chega a conclusão que, de modo geral, o escritor contemporâneo francês de insere em três categorias pra lá de duvidosas.

A primeira: o escritor niilista. A vida não tem sentido, então vou curtir (me parece que esse existe há anos, mas tudo bem. Digamos que o niilismo atual explicaria porque os beats e bukowski e a meia-boquice do John Fante estão na moda). O segundo: o escritor auto-centrado. Eu tenho a tendência a achar que essas duas primeiras categorias são, no fundo, a mesma coisa. Vide Houellebecq. Mas sigamos. O terceiro: o autor para agradar acadêmico. Nessa entraria quase toda a meta-literatura, que não interessa a ninguém, além de acadêmicos e escritores.

O que é um bom gancho para o meu fechamento: se La Littérature en Péril tem um mérito, esse mérito é nos lembrar que, no fim das contas, literatura trata de questões humanas. Portanto pouco vale um guri de colégio saber destrinchar um texto. Deixe o trabalho sujo para os acadêmicos, e mostre ao guri o que o texto está dizendo sobre o mundo. E, em se tratando de escrever, mesma coisa. Sempre bom lembrar que a técnica está (ou deveria estar) sempre subordinada às sensações que quero passar com esse texto, às questões que quero levantar. E esquecer disso é condenar a literatura a meia dúzia de pessoas mostrando umas pras outras os seus contorcionismos formais e estruturais, incapazes de provocar alguma emoção, que não seja aquela piscadinha de olho: ahá, belo truque, hein?

April 16, 2008

Perdão

Category: Uncategorized — bensimon @ 2:49 pm

Il y a un jour, inévitable, où il faut s’excuser d’écrire. Écrire n’est pas correct.
(Chega um dia, inevitável, que é preciso desculpar-se por escrever. Escrever não é correto.)

Gilles Leroy, em Alabama Song. Sublinhei assim, meio sem saber. Por instinto.